Uma duas – Eliane Brum

Existem obras muito fáceis de serem lidas. São aquelas histórias bonitas, agradáveis, que no final do livro dão a sensação de que o mundo é até bonito. Tratando-se de ficção ou não, a literatura está cheia de histórias assim.
Mas, felizmente, existem escritores que ultrapassam essa confortável maneira de escrever e se arriscam a mostrar o que de pior o ser humano pode ser ou fazer. Uma dessas corajosas é a escritora e jornalista Eliane Brum.

Eliane Brum

Quem acompanha o site da Revista Época está acostumado com os ótimos textos da gaúcha, publicados toda segunda feira. Eliane é reconhecida por contar histórias do cotidiano com uma sensibilidade muito incomum nos dias de hoje. O livro “Uma Duas” é sua primeira experiência literária na ficção.

A obra narra a relação entre a jornalista Laura e a sua mãe, Maria Lúcia. Em um certo dia, Laura recebe uma ligação de uma amiga de Maria, informando que ela está há dias trancada em casa, sem se comunicar com ninguém. Com essa notícia, o leitor passa a ter contato com todo o ódio e desprezo que Laura nutre pela mãe. Totalmente contrariada, a jornalista vai até o local e, ao abrir a porta, se depara com a senhora desmaiada e com o pé sendo devorado pelo seu gato. Mas isso nem de longe causa comoção em Laura. Pressionada pelo julgamento moral das pessoas que testemunharam a cena, ela leva a mãe para o hospital, e lá descobre que Maria Lúcia sofre de uma grave doença. Sem opção, Laura resolve largar o emprego e se mudar para a casa da mãe para cuidar dela (ou pelo menos, fingir).
Ao longo do livro, Laura retrata sua relação doentia com Maria Lúcia, e expõe todas as razões que transformaram aquela mulher no maior castigo de sua vida.

Em uma certa passagem do livro, o leitor chega a se comover e a quase ficar com pena de Laura, mas a personagem é tão dura e odiável que é impossível ter esse sentimento. Até que, surpreendente, surge um segundo narrador no livro. Maria Lúcia aparece para contar a sua versão da história, e mostra-se uma personagem muito mais complexa e terrível que a sua filha.

A forma como Eliane Brum descreve as versões de Maria Lúcia e Laura é dilacerante, visceral. Ao longo da leitura, é possível sentir raiva, nojo…espanto. É o ser humano mostrado de uma forma tão humana que chega a ser quase insuportável. Mas talvez a sensação mais estranha que o leitor pode sentir é uma certa compreensão das duas personagens. E isso se deve à maneira brilhante que Eliane Brum coloca as palavras e os sentimentos. Ela é sensacional.

Me peguei chorando no final do livro, e isso é uma coisa que nunca aconteceu comigo. Só isso faz com que essa obra tenha se tornado uma das minhas leituras inesquecíveis. Além, claro, dela ter sido autografada pela própria Eliane em um evento que eu tive o prazer de acompanhar. Leitura perfeita.

“Para Talita, boa sorte na melhor profissão do mundo” Eliane Brum

3 comentários sobre “Uma duas – Eliane Brum

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